|
Aquela velha casa! Tinha perto de trezentos anos,
como se podia ver por uma inscrição gravada numa viga,
no meio de uma guirlanda de tulipas.
Sob a porta podiam-se ler versos escritos na ortografia antiga,
e sob cada janela estavam esculpidas
figuras que faziam caretas engraçadas.
A casa tinha dois andares e no teto havia
uma goteira terminada por uma cabeça de dragão.
A chuva devia escoar-se na rua por essa cabeça;
mas ela se escoava pelo ventre,
pois a goteira tinha um buraco no meio.
Todas as outras casas daquela rua eram novas e próprias,
ornadas de grandes azulejos e muros brancos.
Pareciam desdenhar a sua velha vizinha.
- Quanto tempo ainda este barraco vai ficar aqui?
- pensavam elas - tira-nos toda a vista de um lado.
Sua escadaria é larga como a de um castelo
e alta como a da torre de uma igreja.
A grande porta de ferro maciço parece
a de uma antiga sepultura,
com seus botões de couro. Que coisa! Imaginem só!
Numa dessas lindas casas, na frente da velha,
estava na janela um menino de rosto alegre,
faces coradas e olhos brilhantes.
Gostava muito da velha casa,
tanto à luz do Sol como ao clarão da Lua.
Ele se divertia em copiar as cabeças que faziam caretas,
os ornamentos que representavam soldados armados
e as goteiras que se pareciam com dragões e serpentes.
A velha casa era habitada
por um homem idoso que usava calções curtos,
um casaco com botões de couro
e uma imponente peruca.
Nunca se via ninguém,
exceto um velho doméstico, o qual, todas as manhãs,
vinha arrumar seu quarto e fazer compras.
Algumas vezes olhava para a janela
e então o menino o cumprimentava amistosamente;
nosso homem respondia e assim eles se tornaram amigos
sem nunca se terem falado.
Os pais do menino diziam sempre:
- Esse velhote daí em frente parece estar à vontade;
mas é uma pena que viva tão só.
Eis por que o menino, num domingo,
depois de ter embrulhado algo num pedaço de papel,
foi para a rua e disse ao velho doméstico:
- Ouça, se você quisesse levar
isto ao velho senhor lá em frente,
me daria um grande prazer.
Tenho dois soldados de chumbo,
e dou-lhe um, para que ele não se sinta tão só.
O velho doméstico executou o encargo com alegria
e levou o soldado de chumbo para a velha casa.
Mais tarde, o menino, convidado a visitar o ancião,
correu para lá com a permissão de seus pais.
No interior a maior arrumação reinava por todos os lados;
o corredor estava ornado de antigos retratos de cavaleiros
em suas armaduras e de senhoras com vestido de seda.
No fundo desse corredor havia uma grande varanda,
pouco sólida, era verdade,
mas toda guarnecida de folhagens e de velhos
vasos de flores que tinham por alças orelhas de asno.
A seguir o menino chegou ao aposento onde estava sentado o ancião.
- Obrigado pelo soldado de chumbo, meu amiguinho
- disse este último - obrigado pela sua visita!
- Disseram-me, replicou o menino
- que você estava sempre sozinho;
eis por que enviei-lhe um de meus
soldados de chumbo para fazer-lhe companhia.
- Oh! replicou o velho sorrindo,
nunca estou totalmente sozinho;
muitas vezes velhos pensamentos vêm me visitar
e agora você vem também; não posso queixar-me.
A seguir ele apanhou numa estante um livro de figuras
onde se viam procissões magníficas, carruagens estranhas,
como não existem mais e soldados levando o uniforme de valete-de-paus.
Viam-se ainda as suas corporações com todas as suas bandeiras:
a dos alfaiates levava dois pássaros sustidos por dois leões;
a dos sapateiros estava ornada com uma águia, sem sapatos,
é verdade, mas de duas cabeças.
Os sapateiros gostam de ter tudo em dobro,
a fim de formarem um par.
E, enquanto o menino olhava as figuras,
o ancião ia até o aposento vizinho procurar doces,
frutas, biscoitos e avelãs.
Na verdade a velha casa não era desprovida de conforto.
- Nunca poderia suportar essa existência
- dizia o soldado de chumbo
- colocado sobre um cofre.
Como tudo aqui é triste! Que solidão!
Que infelicidade encontrar-se em semelhante situação,
para quem está acostumado à vida de família!
O dia não acaba nunca.
Que diferença da sala onde seu pai e sua mãe
conversavam alegremente e você e seus irmãos brincavam!
Este ancião, na sua solidão, jamais recebe carícias;
não ri e sem dúvida passa o Natal sem a sua árvore.
Esta habitação se parece com uma tumba;
eu nunca suportaria uma tal existência.
- Não se lamente tanto
- respondia o menino
- pois eu gosto daqui e depois
você sabe que ele recebe sempre a visita
de seus velhos pensamentos.
- É possível, mas eu nunca os vejo;
nem os conheço. Jamais poderia ficar aqui!
- No entanto, é preciso ficar.
O velho voltou com um rosto sorridente,
trazendo os doces, as frutas e as avelãs
e o menino não pensou mais no soldadinho de chumbo.
Após ter-se regalado, voltou contente e feliz para a sua casa;
e não deixava de fazer um sinal amistoso ao seu velho amigo,
de cada vez que o percebia na janela.
Algum tempo depois, ele fez uma segunda visita à velha casa.
- Não posso mais!
- disse o soldadinho de chumbo
- aqui é muito triste.
Tenho chorado chumbo derretido!
Gostaria mais de ir para a guerra,
arriscando-me a perder pernas e braços.
Pelo menos seria uma mudança.
Não agüento mais!
Agora já sei o que é a visita dos velhos pensamentos;
os meus vieram me visitar,
mas sem dar-me o menor prazer.
Eu os via na casa em frente,
como se estivessem aqui.
Assisti à prece matutina,
às suas lições de música
e me achava no meio de todos os outros brinquedos.
Ai de mim! Não passavam de velhos pensamentos.
Diga-me como se comporta a sua irmã, a pequena Maria.
Dê-me notícias também do meu camarada,
o outro soldado de chumbo; ele tem mais sorte do que eu.
Não posso mais, não posso mais.
- Você não mais me pertence
- respondeu o menino
- e eu não tomarei aquilo que dei de presente.
Entregue-se à sua sorte.
O ancião trouxe para o menino umas figuras
e um jogo de antigas cartas, enormes e douradas,
para diverti-lo. A seguir abriu o seu clavicórdio,
tocou um minueto e cantarolou uma velha canção.
- À guerra! à guerra!
- gritou o soldado de chumbo
- e atirou-se ao chão.
O ancião e o menino quiseram levantá-lo,
mas procuraram por todos os lados sem conseguir encontrá-lo.
O soldado de chumbo caíra numa fenda.
Um mês mais tarde era inverno
e o menino soprava as vidraças
a fim de fundir o gelo e limpar o vidro.
Dessa maneira ele poderia fitar a velha casa da frente.
A neve cobria completamente a escadaria,
todas as inscrições e todas as esculturas.
Não se via ninguém, e, realmente, não havia ninguém;
o ancião tinha morrido.
Na mesma noite um carro parava na frente da porta
para receber o corpo que devia ser enterrado no campo.
Ninguém seguia esse carro;
todos os amigos do ancião também estavam mortos.
Somente o menino enviou um beijo
com a ponta dos dedos para o caixão que partia.
Alguns dias mais tarde, a velha casa foi posta à venda,
e o menino, da sua janela,
viu levarem os retratos dos velhos cavaleiros e das castelãs,
os vasos de plantas de orelhas de asno,
os móveis de carvalho e o velho clavicórdio.
Ao chegar a primavera a velha casa foi demolida.
- Não passa de um barraco!
- repetia todo mundo
- e, em algumas horas,
não se via mais do que um monte de escombros.
- Até que enfim!
- disseram as casas vizinhas se pavoneando.
Alguns anos mais tarde,
no local da velha casa se erguia uma casa nova e magnífica,
com um pequeno jardim rodeado de uma grade de ferro;
era habitada por um de nossos antigos conhecidos,
o menino amigo do ancião. O menino crescera,
casara-se; e, no jardim,
ele olhava para sua esposa que plantava uma flor.
De repente ela retirou a mão dando um grito;
algo pontudo ferira seu dedo.
Que acham que era?
Nada mais do que o soldadinho de chumbo,
o mesmo que o menino presenteara ao ancião.
Jogado para cá e para lá,
ele terminara afundando na terra.
A jovem senhora limpou o soldado,
primeiro com uma folha verde,
depois com o seu lenço.
E ele despertou de um longo sono.
- Deixe-me ver!
- disse seu marido sorrindo
- oh! não, não é ele! Mas eu me lembro
da história de um outro soldado de chumbo
que me pertenceu quando eu era criança.
Então ele contou à esposa a história da velha casa,
do ancião e do soldado de chumbo que ele
dera a este último para fazer-lhe companhia.
Ao ouvi-lo, seus olhos se encheram de lágrimas.
- Quem sabe não se trata do mesmo soldado?
- disse ela - de qualquer forma vou guardá-lo.
Mas você poderia mostrar-me o túmulo do ancião?
- Não - respondeu o marido
- não sei onde está e ninguém sabe também.
Todos os seus amigos morreram antes dele,
ninguém o acompanhou até a última morada
e eu não passava de uma criança.
- Que coisa triste é a solidão!
'Coisa pavorosa, realmente'
- pensou o soldadinho de chumbo
- 'Em todo caso, é melhor ficar só do que ser esquecido'.
Hans Christian Andersen |