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Deixo às fontes, aos rios e ao mar
O sangue a circular fora das veias!
E deixo à Terra-mãe em particular,
O meu corpo liberto das idéias!
A voz, deixo-as às noites de Luar!
Ao silêncio de toda a Natureza
Deixo o Eco de mim a ecoar
Nos abismos escuros da incerteza!
Deixo a Luz do olhar à escuridão
Que cobre os labirintos infinitos
Do palpitar de cada coração
De sonhadores, poetas e proscritos!
Às plantas, às árvores, a cada flor;
Ao raiar da aurora e da alegria,
Deixo a musa a exalar o odor
Que da alma se evola em poesia!
Deixo o meu sonho aos corações vazios;
A minha fé, às dúvidas alheias
E meus versos a todos os vadios
Que enchem as angústias e as cadeias!
Aos ventos, às serras e aos montes,
Deixo esta solidão sem fim;
Esta noite cerrada de horizontes;
Esta tristeza vestida de arlequim!
Deixo disperso pelo firmamento
O meu silêncio mortal e imperativo!
Deixo às horas do tempo, o esquecimento
E à saudade um adeus definitivo!
Deixo os 'Trunfos' da vida ao jogador
E a sorte ilesa a toda a emoção
Que apostou na verdade e no amor
E teve o jogo branco da ilusão!
Deixo a esperança virgem à candura
Do olhar belo e puro da criança
- Único recanto onde a tortura
Da angústia e da dor, sente a bonança!
Às algemas humanas do poder
Da moral, da Lei, da hipocrisia
(Agentes da violência de viver)
Deixo vago o lugar que preenchia!
À maldade cruel do 'mundo-cão',
Deixo a culpa expiada em dor pungente,
E em nome da verdade e da razão,
Devolvo à procedência o excedente!
Ao Sol que abre e fecha cada dia,
Deixo o último aceno da existência
Esvaído na última agonia,
Da última e suprema desistência!
E ao destino que me conduziu
Pelos muitos atalhos da viagem,
Deixo o muro invisível... que ruiu
Na minha velha 'Torre de Menagem'!
Deixo à vida um segredo inviolado,
Que não ultrapassou o pensamento
E vai ficar assim... embalsamado
Na memória que lego ao testamento
Só não deixo a ninguém da humanidade
Este sofrer constante e sem abrigo
Feito de angústia, tédio e ansiedade.
- Não o quero deixar... Levo-o comigo!
Luis Filipe Esteves |